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terça-feira, 9 de março de 2010

Português ou Brasileiro?

Vivemos no Brasil, terra de contrastes, de diferenças, de paz-carnaval-futebol, e de dimensões continentais. São 8,51 km² de área, o equivalente a 47% do território da América do Sul e à 5ª maior área territorial do planeta, de acordo com eles. Além disso, é o único país das Américas que tem o Português como língua oficial, e é sobre isso que falaremos hoje (tá, só eu vou falar, mas gosto de pensar que não estou sozinha nessa e que alguém um dia vai ler isso aqui).

Num lugar tão grande como o descrito acima, é muita ingenuidade achar que todo mundo vai falar de um jeito só. Afinal, uma das mais fortes afirmações da cultura regional aqui no Brasil é, na minha opinião, o sotaque de cada lugar. Tem gente que se irrita quando ouve um "uai", há quem ache um "oxente" a coisa mais fofa do mundo, e eu mesma já ouvi críticas e elogios ao meu "carioquêxx". Gostando ou não, não há como negar a beleza que existe em observar a língua portuguesa sendo falada de tantas maneiras diferentes, em cada canto desse nosso vasto território. Às vezes, uma mesma palavra adquire significados diferentes, de acordo com as coordenadas geográficas de onde ela for usada. Se você chegar aqui no Rio, por exemplo, e pedir uma "bolacha", tá arriscado a levar um tapão muito bem dado no meio da cara, primeiro porque "bolacha" também pode significar "bofetada", segundo pra aprender que aqui no Rio a gente pede é "biscoito", e terceiro porque pedir bolacha é coisa de paulis... Bem, porque aqui se fala biscoito e pronto.


Agora, pensa comigo: se aqui dentro do Brasil já existe essa diferença enorme entre o Português falado, imagina entre todos os países lusófonos do mundo. Sim, não somos os únicos a ter a honra de aprender orações subordinadas no colégio, ou a ter a alegria de conjugar verbos em 6 pessoas, 11 tempos e 3 modos. O Português é a única língua oficial de 7 países, uma das oficiais de mais 3, e muito falada porém não-oficial em mais 4, segundo eles de novo. Apesar disso, existe uma diferença fundamental entre o Português usado aqui e o que é usado nos outros cantos do mundo, tão fundamental que uma das duas variedades de língua portuguesa reconhecidas internacionalmente chama-se "Português do Brasil", somente. A outra é o "Português Europeu", e é a mesma utilizada nos países africanos.


E as diferenças entre as duas não se restringem só a vocabulário ou pronúncia não, filhão, a escrita é diferente também. Até que se esforçam pra padronizar, de tempos em tempos surge algum acordo ortográfico pra tentar aproximar ainda mais as duas variantes, no mais recente tiveram a ideia de eliminar alguns acentos e os portugueses vão ter que se contentar com algumas consoantes mudas a menos (pra eles era óptimo escrever dessa maneira). Mas ainda assim, ainda que seja perfeitamente possível entender e se fazer entender com alguém que fale um Português um tanto "diferente" do nosso, será que todo esse contraste não faria do "Português do Brasil" um idioma a parte? Estaria eu falando com vocês em... Brasileiro?


Fernando Pessoa, em um tempo muito antes do meu, disse:“Cada um tem direito a escrever na ortografia que quiser. Tecnicamente, pode haver tantas ortografias quanto há escritores”. Será que, na prática, isso valeria também para o Português falado? Será que cada falante teria o direito de se expressar da maneira que quisesse? Acho difícil; Se fosse esse o caso, viveríamos em uma verdadeira Torre de Babel, com milhões de maneiras diferentes de se falar a mesma língua. No entanto, as tais variedades existem e estão aí, reconhecidas pelo mundo todo. E uma delas é usada aqui, na fala e na escrita ela é exclusivamente brazuca. Vejo nisso uma aproximação do ideal de Policarpo Quaresma, o personagem patriota do Lima Barreto que desejou que o Tupi-Guarani se tornasse a língua oficial do Brasil. Talvez esse tal de "Brasileiro" que usamos por aqui hoje em dia seja o Tupi do Quaresma, por que não? Um idioma só nosso, que reflete a identidade de seu povo, de maneira diferente em cada canto do país mas ainda assim único em sua essência. Talvez se vivesse hoje, vendo a diversidade étnica e cultural que deu e dá origem ao povo e a língua brasileira, Policarpo Quaresma não teria tido um Triste Fim...


P.S: Pra quem nunca leu, recomendo um milhão de vezes: "Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto. Excelente leitura, excelente autor, excelente história. Super vale a pena.

P.S [2]: Jon, foi mal pela empolgação, e valeu pela ideia. Espero ter ajudado e boa sorte com teu trabalho. ♥

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